Férias: Dia 5 - Minehead
Hey you!
Gary e Shaharzad caminhavam na frente em direção ao carro. Eu seguia logo atrás me esforçando para levantar a mala. A cada passo sentindo o salto esfarelar um pouco contra as pedrinhas do calçamento.
- Quer ajuda? - ofereceu Gary prestativo.
- Precisa não, Gary. De onde eu venho nós carregamos nossas próprias bagagens. Certo, Shar?
- Certo, Deb.
Malas alocadas, todos sentados e devidamente acintados aos bancos, Gary fecha os olhos em prece antes de começar a dirigir. Na estrada a chuva ia e vinha como uma criança a correr pela casa num entra e sai sem ordem. Ou talvez fosse melhor dizer que era o sol que brincava de gato e rato tentando espiar o mundo por entre as brechas deixadas pelas nuvens cinzas. Paramos num posto de gasolina para abastecer o carro e nossos estômagos famintos. Na correria, deixei cair meu lenço de seda favorito, que por lá ficou entre latas de sopa, sanduíches congelados e óculos de sol. A estrada se estendia pela frente, murada por paisagens rurais que se sucediam ininterruptamente. A cada curva um campo mais verde se via pisoteado por ovelhas brancas e vacas felpudas. Shaharzad adormeceu, embalada pela chuva e pelo ondular suave do carro. A voz de Gary amortecia o ruído típico da estrada. Com os olhos fixos no horizonte ele me contava sobre Taliqan, a cidade afegã onde mora. Me perguntava sobre meus planos para o futuro, trabalho, estudos, família...
Cruzamos pontes, nos perdemos por entre estradas de nomes parecidos e, por fim, nos encontramos em um vale quando deveríamos estar na beira do mar. Abandonamos a via expressa e nos embrenhamos pelas ruas sinuosas de uma cidadezinha charmosa chamada Minehead. Paisagens. Paisagens. Curva. Pasmo. Uma vista inacreditavelmente linda se descortinou. Era ainda Minehead, mas desse lado ela descia perigosamente a encosta das colinas e se encontrava com o mar que vinha bater nas pedras cinzas e arredondadas. Grey pebbles till the eyes can see, washed out by the sea, little cold pieces of rock smoothed by millennia of water and salt. As casinhas pequeninas e as não tão pequeninas, abriam os olhos iluminados no final da tarde para ver a chuva que continuava a cair. Gary não sabia bem ao certo onde estávamos. Queria continuar drigindo rumo ao sul e parar em outra cidadezinha talvez ainda mais pitoresca. Shaharzad e eu discordamos. O estômago dela já estava a ponto de começar um motim e eu só queria esticar as pernas em algum lugar quente e seco.
Subimos e continuamos a subir pelas vielas sinuosas. Encontramos um castelo, uma igreja, um cemitério, uma floresta e algumas das vistas mais lindas com as quais já tive o prazer de me deparar. Esse tour cinematográfico era, na verdade, uma busca. O sol já se despedia do céu britânico e precisávamos garantir pousada para a noite. Passamos por mais de uma pousada simpática, mas toda vez trocávamos olhares e decidíamos continuar subindo. Foi quando uma placa pendurada em um portão azul nos anunciou "Beverleigh Bed & Breakfast."
- É aqui, Gary. Vamos perguntar logo o preço e ficar por aqui mesmo.
Beverleigh. O portão se abria para uma escada de pedra ladeada por árvores e arbustos. Descemos depressa nos escondendo da chuva e tocamos a sineta da porta. Uma senhora meio desconfiada e rechonchuda entreabiu a porta. Explicamos nossa presença e ela resmungou um pouco. Não gostava de ter hóspedes por apenas uma noite, mas concordou em nos mostrar os quartos disponíveis para que decidíssemos se queríamos mesmo ficar. O próprio lobby já havia nos deixado sem fôlego. Imagine uma hospedaria de contos de fada com penduricalhos nas janelas e coisinhas brilhantes aqui e ali. Subimos as escadas e ela abriu a porta pra um dos quartos mais mais mais.... Ah, olha a foto e complete a frase com seu adjetivo predileto.

The photo doesn’t really show the magic of this room. It can’t make you understand the feeling of walking into something warm and smelling of cinnamon and spices and goodness. O quarto de Gary também era de um bom gosto impressionante. Nós quatro trocamos olhares meio amarelos. Era a hora de perguntar quanto custaria uma noite naquele universo particular. Ela nos disse o preço e ficamos os três a coçar as cabeças indecisos. Descemos as escadas meio murchos. Precisávamos ir à cidade jantar, e prometemos ligar em meia hora pra avisar qual era nossa decisão. Caro não era, mas também não era barato.
Subimos os degraus de pedra sem vontade na chuva fraca. Sentamos no carro, Gary demorava a dar partida. Nos entreolhamos, e mais uma vez trocamos olhares. Gargalhadas encheram o carro quando percebemos que a decisão já estava tomada e era unânime. A pousada de contos de fada era nossa. Ligamos imediatamente e combinamos voltar em duas horar pra ocupar os quartos. Jantamos num restaurante chinês ao som de uma rádio estilo JB Fm. Eu cresci ouvindo JB e cantei ao som do rádio para embaraço e diversão de meus amigos.
“And you can tell everybody this is your song (...)” Elton John e Pato a Pequim.
“I look around and it is you I can’t replace (…)” The Police e Rolinhos Primavera.
“I hear in my mind all of this music (…)” Regina Spektor e Camarões Tso.
O freguês sentado ao lado riu também e levantou sua taça de vinho num brinde. Comemos depressa, pulamos no carro, rodamos perdidos na escuridão por meia hora and there it was! Beverleigh! Carregamos as malas escadas acima e nos acomodamos. Gary ficou com o quarto do sotão no alto de uma escada íngreme. Shar e eu dividimos o quarto de Nárnia (apelido devido ao armário entalhado que dominava a cena). Nossa anfitriã fez planos para o café da manhã e nos deixou à vontade para explorar os quartos e a sala de estar. Shar se derreteu toda quando viu o jogo de louça na janela. Chá, chocolate quente, biscoitos... Preparamos nossas xícaras e sentamos na beirada da cama para sorver em pequenos goles a beleza toda do lugar. Gary se juntou a nós enquanto fazíamos planos para o próximo dia. Tudo em ordem e nós descemos para a sala de estar para ler histórias em voz alta e recitar poesias de nossas terras.

Shaharzad leu Hafiz. Gary começou a ler um conto de C.S. Lewis, mas o resfriado roubava metade da graça, então eu terminei. Sentamos em volta da mesa contando histórias que não estão em livros. Eu contei da Vitória-Régia, João Bururum, e Nicolau Pequeno. Shar contou sobre o viajante que nadou por rios de sangue e escalou montanhas de espinhos para salvar sua amada. Gary contou de pastores que passaram a perna em reis. Os drapeados das cortinas e os livros nas estantes. As xícaras azuis na mesa, e o divã perto do aquecedor. Os enfeites nas cômodas e os lustres iluminados. Tudo. Tudo ouvia às histórias com atenção. As horas passaram sem que percebêssemos. Até os grilos e os sapos desistiram de esperar e se calaram no escuro-verde do lado de fora da casa. Subimos mais uma vez as escadas, dissemos Boa Noite e nos escondemos sob várias camadas de sedas, poliésters, algodão e felicidade.
A manhã seguinte acordou sem pressa. Sentamos à mesa para um café reforçado com ovos, bacon, torradas e... Chá! Infusões de ervas e matos nunca foram minhas bebidas favoritas. Mas as xícaras aqui são tão gentis e todos parecem tão tranquilos bebericando seus chás. Pedi chá de camomila com hortelã para acompanhar meu desjejum. Uma xícara. Duas xícaras. Três xícaras.
- Quatro xícaras, Deb! – Shaharzad se surpreendeu com a velocidade com a qual eu bebia xícara após xícara.
- It is so good, Shar! Tão bom! – Eu continuei a sorver o chá, absorvendo todo o calor que podia na esperança de que a quentura fosse me acompanhar pelo resto da jornada. Nos despedimos da pousada como quem se despede de um ente querido e saímos estrada afora procurando nosso próximo destino.
The UK is not bad at all. You should try and come one day. It is the perfect place to find cherry trees in blossom with strawberry swings and all.
XOXO