Prayer to a loving child

I pray to The Merciful; The Eternal; The Almighty. There’s no One but the One. I pray that He will look upon us, little creatures made of dust. I pray that He’ll give us health, life, and joy for the sake of His magnificent name. I pray that He’ll bless the cradle and those who lovingly bend over it. I pray that He’ll bless those I love, as sweetly as He has blessed me. Praised be God.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Corin,

A cada vez que o tempo esfria um pouquinho meus anticorpos decidem tirar longas sonecas. O resultado é meu nariz escorrendo e aquela sensação familiar de que suas juntas estão tentando se separar. Acordei assim ontem. Acordei assim hoje. Não fui trabalhar. Acessei o sistema daqui de casa mesmo e estou respondendo e-mails entre uma xícara de chá e uma caixa de lenços.

Reli seus últimos posts no blog e fiquei triste. Não é aquela tristeza cheia de pena não. Conheço você bem o suficiente para saber que não vai acabar morando em uma caixa de papelão embaixo do viaduto. Talvez passe uns tempos em um apartamento apertado. Talvez um quarto alugado com direito a minifridge e microwave... Acho que fiquei triste mesmo porque você sempre foi a amiga que sabia kick the system's ass. E eu tenho muito orgulho de quão bem você faz isso. Saber que talvez o sistema esteja prestes a kick your ass me deixa um pouco desanimada.

Não sou pessimista, mas às vezes coisas ruins acontecem e não há jeito de consertá-las. Quando é assim eu gosto de me lamentar sem ter quem me diga que tudo vai acabar bem. Durante a caminhada, quando tropeçamos e caimos por causa das pedras e buracos do caminho, fica difícil olhar para o final da estrada e apreciar o quanto a aspereza do caminho te fará uma pessoa mais madura. Nessa horas é bom chorar em paz. Depois, mortas as esperanças antigas e nascidas as novas, é preciso levantar a cabeça com os olhos já secos, e seguir a vida. Eu ainda torço para existir uma carta do consulado canadense concedendo um visto ao Léo. Mas caso a carta seja uma negativa, farei a prometida visita a BH. Ligaremos nossos rádios na estação Charlie e afogaremos a tristeza em pão de queijo e suco de cacau.

I am cheering for you two. And if the system ends up kicking you, we'll make sure to find a way to kick it straight back.

Lots of love!


Deb

PS: To whomever it may concern (read Canadian visa officer), I hereby declare that Corin is a blessing to anyone she ends up next to. Canada will be an even better place to live in if you grant her and Léo a visa.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Mano,

O vento soprava forte por cima das colinas milenares. Forte. Fortíssimo. Tão forte que por alguns segundos abri os braços e me inclinei, as costas apoiadas no sopro gelado. As ovelhas pastando não prestavam atenção. Nem o cavalo de cinco milênios escavado na colina prestava atenção. As orelhas queimavam de frio, os dedos enrijecidos ardiam por baixo da luva. Levantei a aba do casaco, apertei o cachecol, e fui saltitando morro acima pra esquentar as pernas. Dezenas de ovelhas pararam para ver esse bando esquisito de gente que aparecia. Beeeeeh, eu cumprimentei. E uma ovelha de pêlo branco e cara preta virou a cabeça confusa e respondeu. Beeeeeeeh.

-Beeeeeh
-Beeeh
-Beeeeeeeh
-Beeeh?!?!

E longe se foi a ovelhinha confusa fugindo dos meus balidos tortos.

No carro, tirei as luvas geladas pra aquecer as mãos. O anel furta-cor mudara para negro. O aquecedor foi completando sua mágica e a cor, aos poucos, passou para âmbar, então verde, então azul escuro e quentinho. Esse anel eu havia comprado em Tintern, uma abadia de mais de oitocentos anos.

A história começa onde outra terminou. Logo depois de sair de Beverleigh, a pousada dos sonhos, Gary, Shaharzad e eu nos dirigimos a Porlock, uma cidade à beira-mar. Linda. Idílica. É o ponto mais alto da costa galesa. A estrada se desdobra por cima de montes esmeralda pontuados por ovelhas brancas. De lá de cima vê-se o mar cinzento deslizar sobre pedras também cinzentas. Subimos os montes, descemos através da floresta desperta, e paramos no porto para descansar e absorver aquele sem-fim de cinzas e gris. O tempo parecia suspenso. Encarei o mar e o ar frio afastou o cabelo do rosto como se quisesse por sua vez me ver melhor. A maresia atravessava a lã do casaco e contornava o rosto, o pescoço, as voltas dos cachos. Tudo que tocava impregnava com o cheiro de sal, algas, e antiguidade. Da beira da estrada até a água era só um mar de pedras cinzas. Arredondadas, quase suaves ao toque, polidas por anos e anos de vagas. Shaharzad e eu caminhamos com dificuldade em direção ao mar. A cada passo a possibilidade de escorregar era maior, a lama se misturava às pedras. Pensei no quanto seria terrível torcer um pé naquelas paragens. Chegamos bem perto e paramos antes que os sapatos afundassem completamente na lama negra que beijava o mar. Coloquei algumas pedrinhas no bolso de recordação e voltamos pro carro para continuar a viagem rumo a Tintern.

Chegamos de noite, jantamos num pub simpático na beira da estrada. Sentados ao pé da lareira conversamos e fizemos planos para a visita à abadia no dia seguinte. No escuro, os muros monumentais davam a impressão de serem feitos da mesma matéria que os sonhos. O dia seguinte foi rotina. Alvorada; café da manhã; pagar a conta; ir pra Abadia.

Era cedo quando estacionamos. Paramos na lojinha para comprar cartões postais antes de entrar. Entre cálices, colherinhas de madeira, canecas, e bijouterias variadas, encontrei anéis desses que mudam de cor dependendo da temperatura. É claro que a explicação para a mudança é a menos científica possível na caixinha. Diz ali que o anel lê suas emoções. Uma espécie de magia céltica antiquíssima que permite saber as emoções do portador desde alegria até depressão. Além do material termosensível, digo, sensível a emoções, os anéis eram gravados com símbolos célticos tradicionais. Shaharzad nunca tinha visto um desses. Colocou vários nos dedos e se surpreendeu quando eles todos assumiram a mesma cor. Testamos vários anéis e a cada vez o resultado se repetia. Os dela logo ficavam azuis, de um azul escuro e tranquilo. Os meus logo ficavam verdes, de um verde amarelado e desconcertante.

- Deb, I will get one – disse Shar quando decidiu comprar um.
- I will get one too! – disse eu quando decidi comprar o meu.

Escolhemos anéis idênticos. O símbolo da Trindade marcado em dourado era mais um motivo para eu gostar do brinquedinho. Saímos em direção às ruínas e nos divertimos como nunca. Sozinhas no meio de paredes e arcos centenares nos sentíamos temporais, passageiras, e por isso mesmo ainda mais vivas. Corremos por entre as colunas, subimos em muros que se esfarelavam, rimos muito, tiramos fotos... Shar dançava na grama de tão feliz. Repetia rindo que o mundo era maravilhoso e o tempo inexorável e que estava feliz de estarmos dividindo parte dele. Fazia frio. Muito frio. Os anéis em nossos dedos assumiram a mesma cor: âmbar, agitação, medo. Não sei... Talvez fosse o vento, ou as sombras fantasmagóricas da abadia, mas por alguns segundos eu acreditei que os anéis fossem mesmo mágicos e que as runas neles gravadas pudessem ecoar no tempo e projetar-se no futuro unindo pra sempre as donas dos anéis. O vento gelado nos trouxe de volta à realidade.
Corremos pelo gramado e pra dentro do carro.

- I love you, sister – disse Shar.
- I love you, sister – disse eu.

Magia druida ou não, aquela foi uma manhã inesquecível.

segunda-feira, 5 de abril de 2010



Férias: Dia 5 - Minehead

Hey you!

Gary e Shaharzad caminhavam na frente em direção ao carro. Eu seguia logo atrás me esforçando para levantar a mala. A cada passo sentindo o salto esfarelar um pouco contra as pedrinhas do calçamento.

- Quer ajuda? - ofereceu Gary prestativo.

- Precisa não, Gary. De onde eu venho nós carregamos nossas próprias bagagens. Certo, Shar?

- Certo, Deb.

Malas alocadas, todos sentados e devidamente acintados aos bancos, Gary fecha os olhos em prece antes de começar a dirigir. Na estrada a chuva ia e vinha como uma criança a correr pela casa num entra e sai sem ordem. Ou talvez fosse melhor dizer que era o sol que brincava de gato e rato tentando espiar o mundo por entre as brechas deixadas pelas nuvens cinzas. Paramos num posto de gasolina para abastecer o carro e nossos estômagos famintos. Na correria, deixei cair meu lenço de seda favorito, que por lá ficou entre latas de sopa, sanduíches congelados e óculos de sol. A estrada se estendia pela frente, murada por paisagens rurais que se sucediam ininterruptamente. A cada curva um campo mais verde se via pisoteado por ovelhas brancas e vacas felpudas. Shaharzad adormeceu, embalada pela chuva e pelo ondular suave do carro. A voz de Gary amortecia o ruído típico da estrada. Com os olhos fixos no horizonte ele me contava sobre Taliqan, a cidade afegã onde mora. Me perguntava sobre meus planos para o futuro, trabalho, estudos, família...

Cruzamos pontes, nos perdemos por entre estradas de nomes parecidos e, por fim, nos encontramos em um vale quando deveríamos estar na beira do mar. Abandonamos a via expressa e nos embrenhamos pelas ruas sinuosas de uma cidadezinha charmosa chamada Minehead. Paisagens. Paisagens. Curva. Pasmo. Uma vista inacreditavelmente linda se descortinou. Era ainda Minehead, mas desse lado ela descia perigosamente a encosta das colinas e se encontrava com o mar que vinha bater nas pedras cinzas e arredondadas. Grey pebbles till the eyes can see, washed out by the sea, little cold pieces of rock smoothed by millennia of water and salt. As casinhas pequeninas e as não tão pequeninas, abriam os olhos iluminados no final da tarde para ver a chuva que continuava a cair. Gary não sabia bem ao certo onde estávamos. Queria continuar drigindo rumo ao sul e parar em outra cidadezinha talvez ainda mais pitoresca. Shaharzad e eu discordamos. O estômago dela já estava a ponto de começar um motim e eu só queria esticar as pernas em algum lugar quente e seco.

Subimos e continuamos a subir pelas vielas sinuosas. Encontramos um castelo, uma igreja, um cemitério, uma floresta e algumas das vistas mais lindas com as quais já tive o prazer de me deparar. Esse tour cinematográfico era, na verdade, uma busca. O sol já se despedia do céu britânico e precisávamos garantir pousada para a noite. Passamos por mais de uma pousada simpática, mas toda vez trocávamos olhares e decidíamos continuar subindo. Foi quando uma placa pendurada em um portão azul nos anunciou "Beverleigh Bed & Breakfast."

- É aqui, Gary. Vamos perguntar logo o preço e ficar por aqui mesmo.

Beverleigh. O portão se abria para uma escada de pedra ladeada por árvores e arbustos. Descemos depressa nos escondendo da chuva e tocamos a sineta da porta. Uma senhora meio desconfiada e rechonchuda entreabiu a porta. Explicamos nossa presença e ela resmungou um pouco. Não gostava de ter hóspedes por apenas uma noite, mas concordou em nos mostrar os quartos disponíveis para que decidíssemos se queríamos mesmo ficar. O próprio lobby já havia nos deixado sem fôlego. Imagine uma hospedaria de contos de fada com penduricalhos nas janelas e coisinhas brilhantes aqui e ali. Subimos as escadas e ela abriu a porta pra um dos quartos mais mais mais.... Ah, olha a foto e complete a frase com seu adjetivo predileto. 


The photo doesn’t really show the magic of this room. It can’t make you understand the feeling of walking into something warm and smelling of cinnamon and spices and goodness. O quarto de Gary também era de um bom gosto impressionante.  Nós quatro trocamos olhares meio amarelos. Era a hora de perguntar quanto custaria uma  noite naquele universo particular. Ela nos disse o preço e ficamos os três a coçar as cabeças indecisos. Descemos as escadas meio murchos. Precisávamos ir à cidade jantar, e prometemos ligar em meia hora pra avisar qual era nossa decisão. Caro não era, mas também não era barato.

Subimos os degraus de pedra sem vontade na chuva fraca. Sentamos no carro, Gary demorava a dar partida. Nos entreolhamos, e mais uma vez trocamos olhares. Gargalhadas encheram o carro quando percebemos que a decisão já estava tomada e era unânime. A pousada de contos de fada era nossa. Ligamos imediatamente e combinamos voltar em duas horar pra ocupar os quartos. Jantamos num restaurante chinês ao som de uma rádio estilo JB Fm. Eu cresci ouvindo JB e cantei ao som do rádio para embaraço e diversão de meus amigos.

“And you can tell everybody this is your song (...)” Elton John e Pato a Pequim.

“I look around and it is you I can’t replace (…)” The Police e Rolinhos Primavera.

“I hear in my mind all of this music (…)” Regina Spektor e Camarões Tso.


O freguês sentado ao lado riu também e levantou sua taça de vinho num brinde. Comemos depressa, pulamos no carro, rodamos perdidos na escuridão por meia hora and there it was! Beverleigh! Carregamos as malas escadas acima e nos acomodamos. Gary ficou com o quarto do sotão no alto de uma escada íngreme. Shar e eu dividimos o quarto de Nárnia (apelido devido ao armário entalhado que dominava a cena). Nossa anfitriã fez planos para o café da manhã e nos deixou à vontade para explorar os quartos e a sala de estar. Shar se derreteu toda quando viu o jogo de louça na janela. Chá, chocolate quente, biscoitos... Preparamos nossas xícaras e sentamos na beirada da cama para sorver em pequenos goles a beleza toda do lugar. Gary se juntou a nós enquanto fazíamos planos para o próximo dia. Tudo em ordem e nós descemos para a sala de estar para ler histórias em voz alta e recitar poesias de nossas terras.


Shaharzad leu Hafiz. Gary começou a ler um conto de C.S. Lewis, mas o resfriado roubava metade da graça, então eu terminei. Sentamos em volta da mesa contando histórias que não estão em livros. Eu contei da Vitória-Régia, João Bururum, e Nicolau Pequeno. Shar contou sobre o viajante que nadou por rios de sangue e escalou montanhas de espinhos para salvar sua amada. Gary contou de pastores que passaram a perna em reis. Os drapeados das cortinas e os livros nas estantes. As xícaras azuis na mesa, e o divã perto do aquecedor. Os enfeites nas cômodas e os lustres iluminados. Tudo. Tudo ouvia às histórias com atenção. As horas passaram sem que percebêssemos. Até os grilos e os sapos desistiram de esperar e se calaram no escuro-verde do lado de fora da casa. Subimos mais uma vez as escadas, dissemos Boa Noite e nos escondemos sob várias camadas de sedas, poliésters, algodão e felicidade.

A manhã seguinte acordou sem pressa. Sentamos à mesa para um café reforçado com ovos, bacon, torradas e... Chá! Infusões de ervas e matos nunca foram minhas bebidas favoritas. Mas as xícaras aqui são tão gentis e todos parecem tão tranquilos bebericando seus chás. Pedi chá de camomila com hortelã para acompanhar meu desjejum. Uma xícara. Duas xícaras. Três xícaras.

- Quatro xícaras, Deb! – Shaharzad se surpreendeu com a velocidade com a qual eu bebia xícara após xícara.

- It is so good, Shar! Tão bom! – Eu continuei a sorver o chá, absorvendo todo o calor que podia na esperança de que a quentura fosse me acompanhar pelo resto da jornada. Nos despedimos da pousada como quem se despede de um ente querido e saímos estrada afora procurando nosso próximo destino.

The UK is not bad at all. You should try and come one day. It is the perfect place to find cherry trees in blossom with strawberry swings and all.

XOXO

 

 

 

 

 

 

quarta-feira, 31 de março de 2010


Férias: Dia 1 - Goring-by-Sea

Rafa,

Eu espero na plataforma 18 pelo ônibus que me levará para Oxford. As pernas balançam de um lado para um outro contra a mureta branca onde sentei para esperar. De longe vejo o ônibus azul com letreiro luminoso “OXFORD.” O motorista é rechonchudo, com barba ruiva, e olhinhos pequenos e brilhantes. Abre um sorriso e pergunta “O que posso fazer por você hoje?” Peço uma passagem só de ida e procuro um lugar na carruagem vazia. Sento e a luz vermelha pisca insistente me mandando pôr logo o cinto de segurança. Ao lado do meu pé encontro uma tomada e fico encarando a bichinha por uns minutos. Já estou aqui há 3 dias e não é a primeira vez que vejo uma tomada. O que me surpreende é ter uma no ônibus. Continuo olhando pra tomada pensando no quão absurda ela é. Uma tomada que não faz sentido pra minha cabecinha brasileira. Que me perdoe a rainha por minha falta de sensibilidade cultural, mas as tomadas daqui são ridículas! Coisas rombudas e enormes de três pinos meio quadrados. Precisei comprar um adaptador para poder carregar computador e celular, que por sinal acaba de tocar.

- Oi

- Luzia?

- Não Tereza, é Deborah falando.

- E você não viajou?!

- Tô na Inglaterra, Tereza! Mas diga, quer falar com Luzia? O número é tal e tal.

- Obrigada! Divirta-se por aí!

- Obrigada, Tereza. Me divirto sim.

 

Afasto meus olhos por um tempo da tela do computador e o céu cinzento me saúda. Árvores esqueléticas se preparam para explodir na primavera, e a chuva leve cái de contínuo. Mais à frente ovelhas inglesas pastam em pastos ingleses sem notar que são observadas por olhos brasileiros.Toca de novo o telefone, dessa vez o celular britânico que me emprestaram.

- Hello, Deb speaking.

- Darling, it’s me! When do you get here?

- Shar! I’ll be there in two hours, dear. Will you pick me up?

- Of course, you silly! I’ll be there. See you soon!

- Yay! See you soon, darling! Bye!

O ônibus diminui a velocidade e minha atenção se volta mais uma vez para a janela. Engarrafamento. Tiro uma foto pra recordação e mordo a unha pensando  no que escrever. Estou aqui há três dias, mas parece que pouco aconteceu. Cheguei do aeroporto no primeiro dia e procurei pela plaquinha com meu nome. O motorista, um senhor de cabelos brancos e cara comprida, me ajudou com a mala e indicou onde eu poderia trocar dinheiro. No estacionamento, abri distraidamente a porta da direita e dei de cara com a direção.

- Você vai dirigindo? – Ele perguntou com um meio riso.

- Oh! No! Esqueci que vocês tem os carros trocados...

Sentei no lado certo (que na verdade é errado) e fomos pelo anel viário que cerca Londres. De lá chegamos às cidadezinhas com seus pubs de 1400 e lá vai smoke. Passamos por um ou dois castelos, casinhas com nomes como “Gordon Place,” “Hamilton Cottage,” or Pendleton House.” Kevin parou na ponte para que eu tirasse algumas fotos e depois voltamos, sempre ao sul. Meu estômago apertava de tanta fome e a chegada ao hotel foi benvinda. Carreguei minha mala escadas acima, entrei no quartinho e lá se vai o telefone a tocar outra vez.

- Deb?

- Hey boss! I just got here!

- Great! I’ll pick you up in half an hour. OK? If you are tired, we can do it tomorrow, but I thought you’d want to do it today.

- ….

- OK then! See you soon!

- OK, I’ll be ready.

 

Tenho meia hora pra me arrumar e descer para esperá-la no lobby. Me apronto rápido, com fome e sono, e desço escadas a baixo para dar de cara com uma moça assim parecida comigo. Branquinha, magrinha, baixinha, novinha. Elaine. O dia no escritório passa rápido. Reunião com Elaine. Reunião com Peter. Reunião com Heidi. You speak like an American! So cute!” eles diziam rindo do meu sotaque. “And you speak like, like, like British people! Very cute!” eu pensava. Jantar num restaurante com Elaine e Terry. Na volta reclamar da tomada e de como meu secador não funciona. “E como você secou o cabelo hoje?” pergunta o Terry. “Eu não sequei!” respondo. “Então como ele ficou assim. Todo chacheado? Seu babyliss funciona na tomada?” [Eu pisco, penso, pisco, penso de novo aí Elaine explica pra ele que não é babyliss].

 

“Na manhã seguinte a rotina parecida. Escritório às 9. Verificar e-mails. Reunião com Greg. Reunião com Rich. Reunião com Greg de novo. Reunião com Terry. Reunião com Scott. Reunião com Elaine. Telefonar para o escritório no Brasil. “Tudo bem, Fran? Tudo bem, Lu?” Jantar com Elaine. Hotel. Ligação de trabalho; gente do Brasil. Cama. Mais um dia começa e a rotina também se parece. Alvorada. Banho. Fazer o check out. Ir para o escritório. Reunião com Elaine. Reunião com Rich. Reunião com Ian. Fim!

 

Foi aí que eles me levaram para a estação de trem e me explicaram como chegar em Oxford. Peguei o trem e dormi. Acordei em Gatwick, onde precisava descer e pegar esse ônibus. Minha impressão dos ingleses até agora é positiva. Eles seriam bem mais divertidos se passassem uma temporada no Brasil aprendendo a se soltar, mas no mais eles são educados e e gentis o suficiente. Não espere nenhum bate-papo informal no corredor, mas no trabalho sempre tem alguém para oferecer a cup’o’tee ou cup’o’coffee com biscuits. Continuo no ônibus. A chuva aumentou e as ovelhas continuam a balir nos campor ingleses que beiram a estrada. Escuto uma banda inglesa e seus tunes românticos enquanto espero chegar. A cabeça dói. Estou com sono. Penso no que Elaine me disse. “Por que passar as férias no Reino Unido?! É cinzento, frio, chuvoso, e as pessoas são fechadas.” Eu só ri. Pra quem é feliz, e tem amigos, o que mais importa é a companhia, não o lugar onde se está. Daqui a pouco estarei com Shaharzad e Gary. Mesmo com chuva, frio, e gente fechada, sei que vai ser uma das melhores férias da minha vida.

 

We’ll grab a cup’o’tee when I go back to Rio, my friend! And I’ll look for that Scottish something that you asked for. Beijo beijo!

sábado, 27 de março de 2010


       Dinner in Oxford

We gathered around the fire
Like others before and after us
To eat and drink and celebrate
Life, love, friends, and good food

We met around a table
Like other tables around the globe
To try and explain and laugh of it all
World of tongues, smells, tastes, and hues

We assembled around a cup
Like other cups of tea or coffee
To sip and nip and swallow its bits
Herbs, seeds, leaves, and sugar

We rallied around the light
Like other lights that shine within
To share and merge and complicate
Guests, guesses, opinions and stories

We came together around a tale
Like other tales of truth and lie
To hear and think and canalize
Distances, differences, foes, and allies

                                         by Deborah Rufino

sábado, 7 de novembro de 2009

Ao moço que eu vi menino,

Querido, hoje faz um calor ao qual eu já não estou mais acostumada. Ressenti tantas vezes o inverno inclemente lá de cima e hoje me pego pensando na neve com saudade. Pois bem, com ou sem neve, eu preciso contar minha história e pôr fim ao abandono do meu bloguinho.

Você certamente se lembra das minha sobrinhas. Aquelas duas menininhas de cabelos cacheados e muita personalidade. Lembra também daqueles dias bons, quando você ainda cabia no meu colo, em que eu te contava as histórias mais mirabolantes e preparava mapas de terras imaginárias. Nem nos meus dias mais criativos eu cheguei a imaginar um dia como essa segunda-feira que passou.

Foi um feriado; dia de Finados. Duda e Bela passaram o final de semana aqui em casa. Acordaram com o barulho dos sinos da igreja:
- Balulo, tia? Balulo?
- É, sobrinhas, barulho.
- Catelo, tia? Catelo?
- Não, sobrinhas, igreja. É o sino da igreja.
- Não, tia!! Catelo! Catelo! Catelo!

Elas apontavam para a janela e, além desta, para a torre simpática da Igreja do Divino Salvador. Castelo! Castelo! Da janela correram para a mesa onde estava uma comprida caixa rosa.
- Catelo pricesa, tia? Catelo pricesa?

Era a caixa da barraquinha cor-de-rosa que elas haviam ganhado de presente. Nas paredes de algodão estavam estampadas as princesas Disney, e ao fundo, o castelo da Bela Adormecida. Duda e Bela desataram a contar histórias, das quais eu não entendia palavra nenhuma, exceto "castelo" e "princesa". A barraquinha estava desmontada, guardada dentro da caixa de papelão. Varetas, juntas de plástico e cobertura de algodão embrulhadas com o manual de instruções.
- Posso montar a barraca pra elas, pai?
- Claro que pode. Você sabe como?

Eu não sabia, mas sei ler as instruções. Coloquei as varetas da base, depois as paredes, o telhado, e finalmente montei a barraca colorida para as meninas.
- Tia fez catelo? Fez, tia?
- Sim, a tia montou seu castelo, sobrinha.
- Da pricesa, tia? Da pricesa?
- É sobrinha, o castelo da princesa.

Elas se esbaldaram com o brinquedo. Entraram de gatinhas e contaram histórias uma pra outra, apontando pra esta ou aquela princesa, e correndo pra dentro e pra fora do castelo de faz-de-conta. O sino da igreja bateu novamente, marcando as onze horas.
- Balulo, tia! Balulo catelo!!! Vem catelo, tia, vem!

De volta ao quarto elas tentavam enxergar a torre de onde vinha o repicar do sino. Em vão eu repeti que não era um castelo de verdade. Que era só uma igrejinha. Elas dançavam e pulavam entre gritos e palmas. "Vamos levá-las ao castelo?", sugeriu papai. Nos vestimos, vestimos as crianças e saimos rua afora para ver de perto esse castelo maravilhoso. Viramos a esquina e lá estava ele, o castelo imaginado, cansado e imponente. Bela e Duda bateram palmas, gritaram, e quiseram entrar pra encontrar o tal príncipe e a princesa que faziam tanto barulho.
- Pode, tia? Pode?
- Não dá, sobrinha. O príncipe tá ocupado.
- Pado? Prícipe tá pado?
- É! Ele está ensaiando com a banda de rock dele pra fazer serenata pra princesa.
- Roqui? Cesa?
- Isso! Rock pra princesa.

Elas acreditaram na história da carochinha e voltaram pra casa felizes da vida. O calor beirava o absurdo e Duda pediu colo. Bela ainda olhava pra trá volta e meia pra perguntar sobre a banda do príncipe. Chegaram em casa com sede e vontade de contar pra avó sobre o que tinham visto. Almoçaram. Tomaram banho e voltaram para dentro do castelo cor-de-rosa. "Vem, tia" elas convidaram. E eu entrei para contar a história da princesa Bela e princesa Duda que um dia foram pra praia com a tia. Os olhinhos escuros se aquietaram enquanto elas ouviam histórias sobre suas próprias aventuras. Achei que dessa calma toda, fossem mergulhar direto no sono, mas que nada. Ao final da saga elas perguntaram:
- Cabô, tia? Cabô?

E saíram correndo outra vez pra brincar de Lego, puxar o rabo do cachorro e perguntar as mesmas perguntas outras tantas centenas de vezes.
"Elas vão se lembrar desse dia daqui a muito tempo", disse Maria, "não claramente, mas vão lembrar de um castelo, de um príncipe, da tia e do avô. E vão se perguntar de onde veio a memória, sabendo apenas que é uma lembrança feliz." Realmente feliz, eu pensei. O dia em que vovô as levou pra ver o castelo grande, titia construiu o castelo pequeno, e o príncipe barulhento tocou melodias geniais para uma princesa escondida na torre.

Você anda sumido, meu amigo. Mas sei que também tem lembranças parecidas com essas. Lembranças de dragões, robôs, cavaleiros, árvores falantes, e terras distantes. Aproveite o marasmo que o calor traz e vá lembrar das coisas boas, meio sem explicação, que nossa infância nos deixa.

Saudades, meu príncipezinho!

Deb

domingo, 9 de agosto de 2009

Dear Helô,

Fazia muito frio no dia em que celebrei, pela primeira vez, minha formatura. Inverno. Era uma cerimônia pequena, para cem pessoas no máximo. A presidente da faculdade nos recebeu em sua casa para uma taça de champanhe e morangos cobertos com chocolate. Tradicionalmente, as universidades norte-americanas celebram a formatura uma vez ao ano. Para aqueles que se formam no meio do ano acadêmico – Janeiro – existe uma pequena celebração, geralmente em Dezembro. Foi essa a primeira vez em que eu ouvi a palavra mágica “alumna,” que quer dizer ex-aluna. Naquele dia frio eu recebi um broche e um aperto de mão da presidente juntamente com os votos de um futuro cheio de sucesso.
Eu era permitida apenas dois convidados e fazia todo o sentido que Steve e Shaharzad fossem os escolhidos. Minha sensação de estar afundando desaparecia quando eu via o orgulho estampado no sorriso deles. Eu vestira o vestido vermelho que minha mãe havia feito para mim e, pendurados em minha orelhas, estavam os brincos que Laura me dera pouco antes de morrer. Eu havia prometido a mim mesma que os usaria em minha formatura, que me lembraria dela.
Não me importava que todos me dessem os parabéns e me dissessem que meus quatro anos de graduação haviam finalmente terminado. Fora daquele salão acarpetado fazia frio e estava escuro e eu sabia que os próximos meses seriam os mais duros que eu já havia vivido até então. Além disso, o diploma só seria liberado em Maio. Eu não ganharia o título de bacharel ainda por seis meses. Era como se faltasse algo antes que eu pudesse finalmente virar a página "Smith" da minha vida. Brindei com o restante das formandas e com meus amigos, ciente das incertezas que me aguardavam, mas certa de que tudo ia ficar bem. Foi uma noite interessante.
Chuviscava no dia em que celebrei, pela segunda vez, minha formatura. Primavera. Era uma cerimônia enorme, para seiscentas formandas e suas respectivas famílias. Nós nos agrupamos por dormitório em ordem alfabética e marchamos pelo jardim central. Flashes e gritos de alegria dos pais se embaralhavam no ar. Vestidas com os tradicionais robes pretos, capuzes brancos e o chapéu quadrado nós marchamos e acenamos para as fotos. Prestamos o juramento de nos mantermos fiéis aos nossos ideais e a usar nossos conhecimentos para o bem. Dessa vez, ao ouvir a presidente se referir às formandas, a mim, como alumni, eu pude apreciar suas palavras como alguém que passara seis meses “no mundo real” e voltara para receber o diploma. Atravessei o palco quando a mestre-de-cerimônias chamou meu nome, apertei a mão da presidente e recebi o diploma em seu estojo de couro preto. Era o que eu havia esperado tanto naqueles últimos seis meses.
Da platéia eu sabia que minha mãe, tia, Shaharzad, Eri, Steve, David, Peggy, e tantos outros amigos e amigas me assistiam. Sabia também que eles estavam felizes de me ver concluindo uma parte tão preciosa da minha vida. Minha sensação de estar flutuando se alimentava das lágrimas de orgulho deles. Eu vestira o mesmo vestido e pendurara os mesmos brincos em minhas orelhas; a mesma lembrança serena de duas mulheres que me amaram tanto. Foram fotos, abraços, e muitas lágrimas contidas.
Por mais que todos repetissem que a distância não estragaria nada, que a amizade não seria abalada, eu sabia que não era verdade. Chuviscava e eu sabia que “lá fora” não seria o mesmo. As memórias dos tempos de faculdade iriam perdendo espaço para as novidades dessa nova fase. Celebrei com minhas amigas a conquista do tão suado grau e me despedi delas ciente de que se passarão muitos anos antes que nos vejamos novamente. Foi um dia inesquecível.
Fazia calor no dia em que celebrei, pela terceira vez, minha formatura. Inverno carioca. Dessa vez era meu pai quem vestia a beca. Era ele o formando, mas ele sempre disse que o que é dele é meu também. Minha conquista fora dele; dos anos dedicados a me educar; dos soldos dedicados a custear minha educação; dos anos que passaram marcados pela separação. E agora a conquista dele era minha. Eu o vi passar junto com o restante dos formandos. Minhas lágrimas se misturando com minha miopia faziam as luzes aumentar de tamanho. O sorriso dele, tão largo sempre, pareceu se estender até o infinito e ficar do tamanho do meu orgulho. Minha mãe e eu aplaudimos quando ele cruzou o palco para receber o canudo e a rosa vermelha. Em poucos minutos estavam representadas todas as horas dedicadas ao estudo. Em um simples canudo estava representado o grau que ele conquistara com a graça de Deus e com dedicação.
Ele voltou para nossa mesa no final da celebração para receber o abraço. Ganhou também um buquê improvisado de uma flor só que eu surrupiara do arranjo vizinho. Foi uma noite muito feliz. Foi ele quem perguntou se eu ainda escrevia. “Não,” eu respondi, “faz muito tempo desde que escrevi uma carta de inverno”. “Pois deveria,” ele disse, “desse blog pode acabar saindo um livro”. Essa carta já estava mesmo no forno, esperando a deixa certa para sair. Você também perguntou pelo blog e o time de gente me incentivando a voltar a escrever aumentou. Fica aqui o post então; e a promessa de cartas futuras.


See you at work!
Deb